domingo, 15 de maio de 2016

Big day e os Araçaris na Mata da Capela


Ontem, 14 de maio, foi dia de Big Day, uma data organizada pela The Cornell Lab onde no mundo todo biólogos e birders saem em busca de um levantamento global das aves silvestres. Eu, pelo segundo ano participo deste grande movimento, desta vez em companhia do amigo e biólogo Christian Beier.

Araçaris-castanho (Pteroglossus castanotis)
O local por nós escolhido foi a Mata da Capela, na cidade de Bozano-RS, uma área que sempre reserva alguma surpresa. Combinamos de nos encontrar às 7:00 horas em frente à igreja de Pejuçara, já que eu vinha de Cruz Alta e Christian de Panambi, para dali partimos em um único carro.

Amanhecer em Pejuçara-RS
O dia amanhecia perfeito, temperatura agradável e um amanhecer de tirar o fôlego, e antes mesmo de chegarmos à mata tivemos uma primeira parada onde registramos cruzando a estrada, uma Saracura-do-mato e também um barulhento João-porca, além de escutarmos alguns Bicos-chatos-de-orelha-preta. 

Saracura-do-mato (Aramides saracura)
João-porca (Lochmias nematura)
Após alguns minutos realizando esses primeiros registros seguimos para nosso destino, tendo a certeza de que o dia prometia e a bicharada estaria bem ativa com o sol que já subia no horizonte... Chegando na mata, assim que encostamos o carro logo vimos um casal de Jacuaçus acompanhados de duas saracuras, assim como muitos Pombões e Urubus-de-cabeça-preta no alto das árvores, e logo a seguir dois Tucanos-de-bico-verde cruzaram a estrada dando pouca chance para uma boa foto.

Jacuaçu (Penelope obscura)
Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus)
Já na trilha principal outros encontros interessantes foram aparecendo como o Pi-puí, que permaneceu um bom tempo empoleirado fazendo sua típica vocalização o Pula-pula-assobiador e o  belo Cabecinha-castanha que já é figurinha carimbada nas taquarinhas da Mata da Capela!

Pi-puí (Synallaxis cinerascens)
Pula-pula-assobiador (Myiothlypis leucoblephara)
Cabecinha-castanha (Pyrrhocoma ruficeps)
A manhã estava rendendo e resolvemos seguir pela picada que leva até o grande pé de cedro. No caminho os gritos das Maitacas-verdes e Tiribas-de-testa-vermelha em vôo eram quase constantes, e competiam em igualdade com a vocalização das Tovacas-campainha e Pichororés próximos ao solo. Mas o registros que acabei conseguindo realizar em uma clareira, foi de um Andorinhão-de-sobre-cinzento, meu lifer do dia!

Andorinhão-de-sobre-cinzento (Chaetura cinereiventris)
Ao final da trilha Tiês-de-topete, Cais-cais e um incomum bando com seis ou sete Choquinhas-lisas também foram registradas.

Tiê-de-topete (Lanio melanops)

Choquinha-lisa (Dysithamnus mentalis)
Estávamos satisfeitos com todos os registros e com a bela manhã que havíamos tido, mas foi na volta para o carro que a grande surpresa do dia.  Foi justamente quando registrávamos dois Pica-paus-de-banda-branca, que surgiu o primeiro Araçari-castanho, avistado pelo Christian que logo percebeu haverem mais indivíduos. Corremos para uma melhor posição já que as aves estava muito altas saltando de copa em copa, quando confirmamos tratarem-se de quatro indivíduos!

Pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus)
Bando de Araçaris-castanhos (Pteroglossus castanotis)
Araçaris-castanhos (Pteroglossus castanotis)
Desconheço os registros históricos desta espécie para a região, mas pelo mapeamento do WIKIAVES, este é o ponto mais ao sul do país para o Araçari-castanho, que aparentemente vem aumentando sua área de ocorrência no RS.

Já na estrada, enquanto retornava para Cruz Alta, ainda avistei um lido Gavião-peneira, caçando próximo ao trevo de acesso à Pejuçara-RS.

Gavião-peneira (Elanus leucurus)

E esse foi o rápido resumo de mais uma manhã perfeita de passarinhada, com muitas aves e mais algumas histórias pra contar.

Charles Boufleur  e  Christian Beier

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Noivinha-branca: Um registro inédito para o RS!

Este ano definitivamente tem me reservado muitas surpresas, e mesmo sem eu ter realizado grandes viagens, é aqui na minha cidade que tenho conseguido realizar registros relevantes.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Foi aqui em Cruz Alta mesmo que este ano consegui fotografar espécies raras como o papa-moscas-canela, a viuvinha-de-óculos, a águia-chilena e agora o improvável registro da noivinha-branca!

Papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis)
Águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) acompanhada de garças Marias-faceiras

Viuvinha-de-óculos (Hymenops perspicillatus)
Tal acontecimento se deu no último dia 10 de julho, na estrada que vai para a localidade de Lagoão, próximo ao kartódromo municipal.

Era uma tarde nublada, eu estava sozinho de carro, quando à poucos quilômetros da cidade avistei uma ave clara pousada no fio de arame. Aproximei o carro e ela logo alçou voo para o alto de um poste de luz. Ali deu para perceber algumas características da ave que ao voar apresentava um leque branco nas asas cinzentas, de longe assemelhava-se ao voo de uma Primavera (xolmis cinereus)... 

Desci do carro, e fiz as primeiras fotos: na lateral das asas fechadas também era marcante uma estreita faixa branca que lembrava uma calhandra-de-três-rabos, porém esta era uma ave muito mais clara e sem a famosa cauda tripartida clara-escura-clara, mas sim com a extremidade da cauda toda escura.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Após alguns minutos com a ave bem acima da minha cabeça, fazendo fotos complicadas num péssimo angulo e com um céu cinzento em destaque, tive o meu segundo momento de muita sorte no dia, quando a ave desceu rapidamente ao solo, pinçou uma grande taturana que não cabia em seu bico e então pousou no mourão da cerca à uns dez metros de distância. Nesta hora, com a arisca ave muito mais preocupada em achar uma forma de matar o inseto do que com minha presença, consegui uma ótima sequência de fotos e até videos. A essa altura eu já vibrava descartando qualquer das espécies comuns na região.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Noivinha-branca (xolmis velatus)
Na verdade como eu ainda não conhecia a espécie, cogitava a possibilidade de que a ave fosse uma fêmea de noivinha-de-rabo-preto, ou fêmea de noivinha-coroada, duas espécies familiares, com ocorrência bastante restrita à certas regiões do estado, sendo a primeira mais relacionada com a serra e litoral, e a segunda, migratória de inverno com ocorrência restrita ao extremo oeste gaúcho, ambas as hipóteses seriam de um grande achado!

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Foi somente ao consultar meu guia de campo que obtive a resposta de identificação da Xolmis Velatus, que depois foi confirmada pelo amigo e biólogo Carlos Agne no wikiaves. Ocorre que tal espécie tinha até então uma área ocorrência predominante nos estados do centro e  centro-oeste, onde inclusive parece ser bastante comum, porém, nos últimos anos ela já vinha dando demonstrações de ampliação desta área também para o sul com registros recentes em Santa Catarina.
Fonte: wikiaves





Esse registro, apesar de dar motivos à comemorar por aumentar a lista de espécies com ocorrência confirmadas no Rio Grande do Sul, também causa uma certa preocupação, como bem destacou o biólogo Adrian Eisen Rupp ao alertar que o aumento de espécies generalistas como essa pode ocasionar pressão e até a diminuição de espécies endêmicas em razão da competição. 




Acredito que pelas características desta ave campestre, em pouco tempo teremos novos registros dela no estado, mas saber se tal movimento será prejudicial para a avifauna gaúcha só o tempo irá dizer.

Por fim, deixo o link do registro em vídeo realizado:



domingo, 28 de junho de 2015

Todo dia é dia de índio...


No último sábado, 27 de junho, eu e os biólogos Dante Meller e Alfieri Callegaro, nos encontramos para mais uma passarinhada exploratória. O local escolhido foi a Reserva Indígena Inhacorá localizada na cidade de São Valério do Sul-RS.

Tucano-de-bico-verde (Ramphastos Dicolorus)  Foto: Charles Boufleur
Tico-tico-rei (Lanio Cucullatus), macho.  Foto: Dante Meller
Ao estudarmos os mapas locais logo foi possível verificar a importância ecológica que a região representa, tendo a área da Reserva aproximadamente 2.800ha, cortada pelo rio Inhacorá.  Bem como outros dois grandes fragmentos de mata, uma delas com 211ha, e outra mais ao sul, o Mato do Silva, com 305ha o que tornam a região impar no Noroeste gaúcho.

Chiapetta localizada ao Norte de Ijuí



Como eu parti de Cruz Alta e os outros dois integrantes de Santo Ângelo, nosso encontro ocorreu no trevo de acesso de Ijuí, às 6:30h, de onde partimos em um único carro.

Como nenhum de nós conhecia a região, a proposta foi de explorarmos um pouco de cada uma das três áreas, sendo a primeira delas o matão da empresa ASP. Porém, ao chegarmos no local encontramos a porteira fechada e ao nos dirigirmos à empresa não haviam pessoas responsáveis pelo acesso no expediente, assim, tivemos que abortar nossa primeira meta e partir para a seguinte de conhecer e explorar trechos da enorme Reserva Inhacorá.

Três áreas a serem exploradas próximas à Chiapetta-RS




Segundo nossos mapas de GPS uma estrada que partia do coração da tribo seria a melhor alternativa, pois o caminho passava por longo trecho de mata fechada, além de áreas mais abertas até uma nova região com mais um longo trecho de mato. Porém, ao chegarmos na tribo Caigangue para falarmos com o cacique, novamente tivemos um revez ao saber que a tal estrada era inacessível para veículos, pois a ponte estava caída... Então fomos orientados a usar outro trecho que nos levaria à escola agrícola que era um de nossos pontos de referência.


Escola Agrícola próxima à bifurcação





E não é que foi justamente no uso deste desvio que tivemos uma grata surpresa, não por encontrar uma espécie, mas por encontrar um bioma bastante distinto dos existentes na região. Há poucos quilômetros da tribo um enorme banhado de caraguatás e juncos se destaca na paisagem, e com a estrada passando bem em seu meio, este se torna um local de grande interesse para futuras observações, pois pode abrigar espécies pouco comuns.

Dante observando a área de banhado.  Foto: Charles Boufleur

Na ocasião ventava e pouca coisa conseguimos observar, mas eu consegui registrar um emberizoide que pela distância e qualidade de luz ficou difícil distinguir se é um Canário-do-campo ou um Canário-do-brejo.

Emberizoides sp.  Foto: Charles Boufleur

Seguindo pela estrada que contorna a Reserva, outra infeliz surpresa foi encontrar um Bacurau no meio da estrada aparentemente atropelado, mas ainda vivo, que com nossa aproximação alçou um desajeitado voo para o interior da mata.

Bacurau (Hydropsalis Albicolis), ferido. Foto: Charles Boufleur

Um pouco adiante adentramos definitivamente na estrada que leva à Escola Agrícola, sendo esta uma estrada linda em meio à mata fechada e com um solo extremamente argiloso. Neste local passamos o restante da manhã passarinhando.  Ali ouvimos e avistamos diversas espécies como o surucuá-variado, o piolhinho-verdoso, limpa-folhas-de-testa-baia, o benedito-de-testa-amarela, o pica-pau-de-banda-branca, o azulão, o tiê-do-mato-grosso, o arapaçu-escamado-do-sul, o arapaçu-verde, o beija-flor-de-topete e o meu lifer do dia, o bico-virado-carijó.

Bico-virado-carijó (Xenops Rutilans) Foto: Charles Boufleur
Tiê-de-topete (Lanio Melanops), macho. Foto: Alfieri Callegaro
Surucuá-variado (Trogon Surrucura), fêmea. Foto: Charles Boufleur
Arapaçu-escamado-do-sul (Leipidocolaptes Falcinellus) Foto: Charles Boufleur
Benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons), macho. Foto: Charles Boufleur
Marianinha-amarela (Capsiemps Flaveola) Foto: Charles Boufleur
Azulão (Cyanoloxia Brissonii), fêmea. Foto: Charles Boufleur
Tiê-do-mato-grosso (Habia Rubica), macho. Foto: Alfieri Callegaro

Mas a grande surpresa nos aguardava no retorno para o carro, quando ao ouvirmos uma pequena algazarra nas margens da estrada pudemos avistar um bando de macacos-prego que furtivamente esconderam-se com a nossa presença.

Macaco-prego (Sapajus nigritus) , saltando.

Na sequência andamos mais uns 5km de carro margeando a Reserva, quando encontramos espécies mais comuns como o trinca-ferro, o azulinho, o alegrinho, o carrapateiro, mas também tivemos um avistamento muito inusitado que somente o Dante seria capaz de perceber.  Voando alto junto com os urubus um indivíduo de gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus) melânico!

Gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus), melânico   Foto: Charles Boufleur

Após termos passado toda a manhã e o início do tarde na área da reserva, era chegada a hora do nosso terceiro objetivo: explorar o Mato do Silva. Ocorre que, assim, como as dificuldades encontradas nos outros locais, ali também teríamos uma provação a enfrentar. Ocorre que a estrada que havíamos mapeado não existia mais! Segundo moradores do local, tal estrada era cortada por nascentes e acabou sendo definitivamente interrompida há algum tempo... Mas a persistência do nosso grupo foi maior e acabamos acessando o local por uma propriedade lindeira onde fomos muito bem recebidos.

Pombão (Patagioenas picazuro) Foto: Charles Boufleur
O Mato do Silva se mostrou ser um lugar bem interessante com diversos voos de tucanos-de-bico-verde, mas também, apresentou toda a sua dificuldade quando adentramos uma picada numa região de muito bambuzal. Neste local ouvimos a tovaca-campainha. 

Bando de Maitaca-verde (Pionus maximiliani) Foto: Charles Boufleur
Caturrita (Myiopsitta monachus) com material para o ninho. Foto: Charles Boufleur
Por fim, nos últimos clicks do dia, registramos mais um gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus), desta vez com sua plumagem tradicional.

Gavião-de-cauda-curta  (Buteo Brachyurus)   Foto: Dante Andrés Meller
Em resumo, fica deste dia a experiência de ter conhecido mais um importante refúgio de vida selvagem no noroeste do estado, um local de espécies ameaçadas e de uma rica cultura indígena, um povo sofrido que vem sendo à décadas excluído da sociedade. Sentimos também as dificuldades de explorar locais grandes e desconhecidos, quando as coisas nem sempre ocorrem bem como o planejado, e assim imagino quantos revezes o povo indígena não passou para colonizar nossa região. 

Finalizamos o dia contabilizando impressionantes 90 espécies! Mas o que realmente fica, é mais um dia de muitas aventuras, onde as amizades se fortalecem e experiências são compartilhadas.