sábado, 29 de abril de 2017

Como se tornar um observador de aves

Aproveitando que ontem foi o DIA DO OBSERVADOR DE AVES dou dicas infalíveis de como se tornar um Expert em UMA SEMANA! Papel e caneta na mão...

Passo 1: Corra para o site wikiaves e crie logo o seu perfil, afinal, a maioria dos observadores já passou das 200 espécies e você nem começou! O bom é que é grátis, tem alguns que contribuem mas é só pra ter umas frescurinhas no perfil... Pronto, já pode pensar em uma câmera super zoom pra tirar fotos “bem de pertinho”.
Vamos lá, o começo é bem fácil, tire foto de todos os animais alados que passarem na tua frente e vai postando pra sair logo da situação incomoda de “iniciante” no site. Mas já vou avisando, não vale foto de galinha, pato e bicho engaiolado, mas se fotografar algum periquito-australiano voando por aí posta e tenta convencer aqueles moderadores de que ele estava em liberdade e que provavelmente é uma “nova espécie” que está começando a ocorrer no Brasil e você foi um dos poucos privilegiados que teve a sorte de flagrá-la. Vão surgir umas opiniões contra, mas rende uma boa discussão e logo você já ficará bem conhecido no meio ornitológico (não necessariamente de modo positivo).
De começo não precisa se preocupar em acertar a espécie fotografada, pois o pessoal vai corrigindo e logo logo tu também vai poder dar pitaco nos registros dos outros.  Nem precisa estudar muito, e guias impressos são antiquados e caríssimos totalmente dispensáveis.
A próxima dica importante é conhecer alguém mais experiente para te levar junto numa saída à campo. Se for um grupo então melhor ainda, essas passarinhadas rendem no mínimo uns 50 lifers, e se alguém te mandar fotografar uma espécie por que é rara, não pense duas vezes registra mesmo, porque talvez aquele observador esteja em busca desta espécie há anos e agora tu podes aproveitar a experiência dele e realizar um registrão com o mínimo de esforço!
Falando em foto melhor, sei que as primeiras serão um borrão só, mas cropa bem apertada a ave (estilo close-up) e aumenta a saturação que vai ter muitos elogios. Também não esquece de distribuir comentários e estrelinhas nas fotos dos outros que isso rende alguns pontos no teu perfil!
Pronto, seguindo essas dicas infalíveis provavelmente em uma semana já terás umas 60 ou 70 espécies e passarás à categoria sênior no wikiaves, aí terás mais liberdades de postar uma quantidade maior de fotos aumentando o número de registros mesmo com pouca relevância.  
No facebook, procure por amigos de amigos, todos que estiverem camuflados ou segurando canhões fotográficos precisam ser teus amigos...


NÃO AMIGOS! Infelizmente hoje em dia, é assim que a coisa funciona, mas não é assim que nos tornamos verdadeiros observadores de aves.  
Levei alguns anos pra descobrir que SER um observador de aves é um estado de espírito onde você se liga com a natureza de tal maneira que os encontros com as diferentes espécies, raras ou não, são momentos únicos. 
Descobri que pra observar bastam os olhos, e que muitas vezes são as aves que nos observam.  E que em cada vez que se para pra admirar a natureza ela nos ensina algo e nos fortalece, nossa alma se expande e a mágica acontece! 

Então se você pretende se tornar ou já está em meio ao frenético processo de conquista de espaço que relatei, pare e pense. Afinal, cada coisa tem seu tempo e as menos aceleradas são as mais duradouras. Estude, reflita, aprenda e esperar, curta o momento, participe de grupos, contribua com as plataformas como Wikiaves, seja humilde, ajude aos que solicitarem e controle a vaidade. A ornitologia é linda, mas também é um caminho longo de aprendizado, que quando vem é pra ficar. Não existe um ex-observador, existem observadores que fotografam menos, postam menos, mas se já chegaram lá, jamais deixarão de SER.

Por fim, preciso dizer que você não se torna um observador de aves em uma semana, mas sim em um instante, contudo, este instante pode levar muito tempo até acontecer.


domingo, 15 de maio de 2016

Big day e os Araçaris na Mata da Capela


Ontem, 14 de maio, foi dia de Big Day, uma data organizada pela The Cornell Lab onde no mundo todo biólogos e birders saem em busca de um levantamento global das aves silvestres. Eu, pelo segundo ano participo deste grande movimento, desta vez em companhia do amigo e biólogo Christian Beier.

Araçaris-castanho (Pteroglossus castanotis)
O local por nós escolhido foi a Mata da Capela, na cidade de Bozano-RS, uma área que sempre reserva alguma surpresa. Combinamos de nos encontrar às 7:00 horas em frente à igreja de Pejuçara, já que eu vinha de Cruz Alta e Christian de Panambi, para dali partimos em um único carro.

Amanhecer em Pejuçara-RS
O dia amanhecia perfeito, temperatura agradável e um amanhecer de tirar o fôlego, e antes mesmo de chegarmos à mata tivemos uma primeira parada onde registramos cruzando a estrada, uma Saracura-do-mato e também um barulhento João-porca, além de escutarmos alguns Bicos-chatos-de-orelha-preta. 

Saracura-do-mato (Aramides saracura)
João-porca (Lochmias nematura)
Após alguns minutos realizando esses primeiros registros seguimos para nosso destino, tendo a certeza de que o dia prometia e a bicharada estaria bem ativa com o sol que já subia no horizonte... Chegando na mata, assim que encostamos o carro logo vimos um casal de Jacuaçus acompanhados de duas saracuras, assim como muitos Pombões e Urubus-de-cabeça-preta no alto das árvores, e logo a seguir dois Tucanos-de-bico-verde cruzaram a estrada dando pouca chance para uma boa foto.

Jacuaçu (Penelope obscura)
Tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus)
Já na trilha principal outros encontros interessantes foram aparecendo como o Pi-puí, que permaneceu um bom tempo empoleirado fazendo sua típica vocalização o Pula-pula-assobiador e o  belo Cabecinha-castanha que já é figurinha carimbada nas taquarinhas da Mata da Capela!

Pi-puí (Synallaxis cinerascens)
Pula-pula-assobiador (Myiothlypis leucoblephara)
Cabecinha-castanha (Pyrrhocoma ruficeps)
A manhã estava rendendo e resolvemos seguir pela picada que leva até o grande pé de cedro. No caminho os gritos das Maitacas-verdes e Tiribas-de-testa-vermelha em vôo eram quase constantes, e competiam em igualdade com a vocalização das Tovacas-campainha e Pichororés próximos ao solo. Mas o registros que acabei conseguindo realizar em uma clareira, foi de um Andorinhão-de-sobre-cinzento, meu lifer do dia!

Andorinhão-de-sobre-cinzento (Chaetura cinereiventris)
Ao final da trilha Tiês-de-topete, Cais-cais e um incomum bando com seis ou sete Choquinhas-lisas também foram registradas.

Tiê-de-topete (Lanio melanops)

Choquinha-lisa (Dysithamnus mentalis)
Estávamos satisfeitos com todos os registros e com a bela manhã que havíamos tido, mas foi na volta para o carro que a grande surpresa do dia.  Foi justamente quando registrávamos dois Pica-paus-de-banda-branca, que surgiu o primeiro Araçari-castanho, avistado pelo Christian que logo percebeu haverem mais indivíduos. Corremos para uma melhor posição já que as aves estava muito altas saltando de copa em copa, quando confirmamos tratarem-se de quatro indivíduos!

Pica-pau-de-banda-branca (Dryocopus lineatus)
Bando de Araçaris-castanhos (Pteroglossus castanotis)
Araçaris-castanhos (Pteroglossus castanotis)
Desconheço os registros históricos desta espécie para a região, mas pelo mapeamento do WIKIAVES, este é o ponto mais ao sul do país para o Araçari-castanho, que aparentemente vem aumentando sua área de ocorrência no RS.

Já na estrada, enquanto retornava para Cruz Alta, ainda avistei um lido Gavião-peneira, caçando próximo ao trevo de acesso à Pejuçara-RS.

Gavião-peneira (Elanus leucurus)

E esse foi o rápido resumo de mais uma manhã perfeita de passarinhada, com muitas aves e mais algumas histórias pra contar.

Charles Boufleur  e  Christian Beier

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Noivinha-branca: Um registro inédito para o RS!

Este ano definitivamente tem me reservado muitas surpresas, e mesmo sem eu ter realizado grandes viagens, é aqui na minha cidade que tenho conseguido realizar registros relevantes.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Foi aqui em Cruz Alta mesmo que este ano consegui fotografar espécies raras como o papa-moscas-canela, a viuvinha-de-óculos, a águia-chilena e agora o improvável registro da noivinha-branca!

Papa-moscas-canela (Polystictus pectoralis)
Águia-chilena (Geranoaetus melanoleucus) acompanhada de garças Marias-faceiras

Viuvinha-de-óculos (Hymenops perspicillatus)
Tal acontecimento se deu no último dia 10 de julho, na estrada que vai para a localidade de Lagoão, próximo ao kartódromo municipal.

Era uma tarde nublada, eu estava sozinho de carro, quando à poucos quilômetros da cidade avistei uma ave clara pousada no fio de arame. Aproximei o carro e ela logo alçou voo para o alto de um poste de luz. Ali deu para perceber algumas características da ave que ao voar apresentava um leque branco nas asas cinzentas, de longe assemelhava-se ao voo de uma Primavera (xolmis cinereus)... 

Desci do carro, e fiz as primeiras fotos: na lateral das asas fechadas também era marcante uma estreita faixa branca que lembrava uma calhandra-de-três-rabos, porém esta era uma ave muito mais clara e sem a famosa cauda tripartida clara-escura-clara, mas sim com a extremidade da cauda toda escura.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Após alguns minutos com a ave bem acima da minha cabeça, fazendo fotos complicadas num péssimo angulo e com um céu cinzento em destaque, tive o meu segundo momento de muita sorte no dia, quando a ave desceu rapidamente ao solo, pinçou uma grande taturana que não cabia em seu bico e então pousou no mourão da cerca à uns dez metros de distância. Nesta hora, com a arisca ave muito mais preocupada em achar uma forma de matar o inseto do que com minha presença, consegui uma ótima sequência de fotos e até videos. A essa altura eu já vibrava descartando qualquer das espécies comuns na região.

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Noivinha-branca (xolmis velatus)
Na verdade como eu ainda não conhecia a espécie, cogitava a possibilidade de que a ave fosse uma fêmea de noivinha-de-rabo-preto, ou fêmea de noivinha-coroada, duas espécies familiares, com ocorrência bastante restrita à certas regiões do estado, sendo a primeira mais relacionada com a serra e litoral, e a segunda, migratória de inverno com ocorrência restrita ao extremo oeste gaúcho, ambas as hipóteses seriam de um grande achado!

Noivinha-branca (xolmis velatus)
Foi somente ao consultar meu guia de campo que obtive a resposta de identificação da Xolmis Velatus, que depois foi confirmada pelo amigo e biólogo Carlos Agne no wikiaves. Ocorre que tal espécie tinha até então uma área ocorrência predominante nos estados do centro e  centro-oeste, onde inclusive parece ser bastante comum, porém, nos últimos anos ela já vinha dando demonstrações de ampliação desta área também para o sul com registros recentes em Santa Catarina.
Fonte: wikiaves





Esse registro, apesar de dar motivos à comemorar por aumentar a lista de espécies com ocorrência confirmadas no Rio Grande do Sul, também causa uma certa preocupação, como bem destacou o biólogo Adrian Eisen Rupp ao alertar que o aumento de espécies generalistas como essa pode ocasionar pressão e até a diminuição de espécies endêmicas em razão da competição. 




Acredito que pelas características desta ave campestre, em pouco tempo teremos novos registros dela no estado, mas saber se tal movimento será prejudicial para a avifauna gaúcha só o tempo irá dizer.

Por fim, deixo o link do registro em vídeo realizado: