domingo, 28 de junho de 2015

Todo dia é dia de índio...


No último sábado, 27 de junho, eu e os biólogos Dante Meller e Alfieri Callegaro, nos encontramos para mais uma passarinhada exploratória. O local escolhido foi a Reserva Indígena Inhacorá localizada na cidade de São Valério do Sul-RS.

Tucano-de-bico-verde (Ramphastos Dicolorus)  Foto: Charles Boufleur
Tico-tico-rei (Lanio Cucullatus), macho.  Foto: Dante Meller
Ao estudarmos os mapas locais logo foi possível verificar a importância ecológica que a região representa, tendo a área da Reserva aproximadamente 2.800ha, cortada pelo rio Inhacorá.  Bem como outros dois grandes fragmentos de mata, uma delas com 211ha, e outra mais ao sul, o Mato do Silva, com 305ha o que tornam a região impar no Noroeste gaúcho.

Chiapetta localizada ao Norte de Ijuí



Como eu parti de Cruz Alta e os outros dois integrantes de Santo Ângelo, nosso encontro ocorreu no trevo de acesso de Ijuí, às 6:30h, de onde partimos em um único carro.

Como nenhum de nós conhecia a região, a proposta foi de explorarmos um pouco de cada uma das três áreas, sendo a primeira delas o matão da empresa ASP. Porém, ao chegarmos no local encontramos a porteira fechada e ao nos dirigirmos à empresa não haviam pessoas responsáveis pelo acesso no expediente, assim, tivemos que abortar nossa primeira meta e partir para a seguinte de conhecer e explorar trechos da enorme Reserva Inhacorá.

Três áreas a serem exploradas próximas à Chiapetta-RS




Segundo nossos mapas de GPS uma estrada que partia do coração da tribo seria a melhor alternativa, pois o caminho passava por longo trecho de mata fechada, além de áreas mais abertas até uma nova região com mais um longo trecho de mato. Porém, ao chegarmos na tribo Caigangue para falarmos com o cacique, novamente tivemos um revez ao saber que a tal estrada era inacessível para veículos, pois a ponte estava caída... Então fomos orientados a usar outro trecho que nos levaria à escola agrícola que era um de nossos pontos de referência.


Escola Agrícola próxima à bifurcação





E não é que foi justamente no uso deste desvio que tivemos uma grata surpresa, não por encontrar uma espécie, mas por encontrar um bioma bastante distinto dos existentes na região. Há poucos quilômetros da tribo um enorme banhado de caraguatás e juncos se destaca na paisagem, e com a estrada passando bem em seu meio, este se torna um local de grande interesse para futuras observações, pois pode abrigar espécies pouco comuns.

Dante observando a área de banhado.  Foto: Charles Boufleur

Na ocasião ventava e pouca coisa conseguimos observar, mas eu consegui registrar um emberizoide que pela distância e qualidade de luz ficou difícil distinguir se é um Canário-do-campo ou um Canário-do-brejo.

Emberizoides sp.  Foto: Charles Boufleur

Seguindo pela estrada que contorna a Reserva, outra infeliz surpresa foi encontrar um Bacurau no meio da estrada aparentemente atropelado, mas ainda vivo, que com nossa aproximação alçou um desajeitado voo para o interior da mata.

Bacurau (Hydropsalis Albicolis), ferido. Foto: Charles Boufleur

Um pouco adiante adentramos definitivamente na estrada que leva à Escola Agrícola, sendo esta uma estrada linda em meio à mata fechada e com um solo extremamente argiloso. Neste local passamos o restante da manhã passarinhando.  Ali ouvimos e avistamos diversas espécies como o surucuá-variado, o piolhinho-verdoso, limpa-folhas-de-testa-baia, o benedito-de-testa-amarela, o pica-pau-de-banda-branca, o azulão, o tiê-do-mato-grosso, o arapaçu-escamado-do-sul, o arapaçu-verde, o beija-flor-de-topete e o meu lifer do dia, o bico-virado-carijó.

Bico-virado-carijó (Xenops Rutilans) Foto: Charles Boufleur
Tiê-de-topete (Lanio Melanops), macho. Foto: Alfieri Callegaro
Surucuá-variado (Trogon Surrucura), fêmea. Foto: Charles Boufleur
Arapaçu-escamado-do-sul (Leipidocolaptes Falcinellus) Foto: Charles Boufleur
Benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons), macho. Foto: Charles Boufleur
Marianinha-amarela (Capsiemps Flaveola) Foto: Charles Boufleur
Azulão (Cyanoloxia Brissonii), fêmea. Foto: Charles Boufleur
Tiê-do-mato-grosso (Habia Rubica), macho. Foto: Alfieri Callegaro

Mas a grande surpresa nos aguardava no retorno para o carro, quando ao ouvirmos uma pequena algazarra nas margens da estrada pudemos avistar um bando de macacos-prego que furtivamente esconderam-se com a nossa presença.

Macaco-prego (Sapajus nigritus) , saltando.

Na sequência andamos mais uns 5km de carro margeando a Reserva, quando encontramos espécies mais comuns como o trinca-ferro, o azulinho, o alegrinho, o carrapateiro, mas também tivemos um avistamento muito inusitado que somente o Dante seria capaz de perceber.  Voando alto junto com os urubus um indivíduo de gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus) melânico!

Gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus), melânico   Foto: Charles Boufleur

Após termos passado toda a manhã e o início do tarde na área da reserva, era chegada a hora do nosso terceiro objetivo: explorar o Mato do Silva. Ocorre que, assim, como as dificuldades encontradas nos outros locais, ali também teríamos uma provação a enfrentar. Ocorre que a estrada que havíamos mapeado não existia mais! Segundo moradores do local, tal estrada era cortada por nascentes e acabou sendo definitivamente interrompida há algum tempo... Mas a persistência do nosso grupo foi maior e acabamos acessando o local por uma propriedade lindeira onde fomos muito bem recebidos.

Pombão (Patagioenas picazuro) Foto: Charles Boufleur
O Mato do Silva se mostrou ser um lugar bem interessante com diversos voos de tucanos-de-bico-verde, mas também, apresentou toda a sua dificuldade quando adentramos uma picada numa região de muito bambuzal. Neste local ouvimos a tovaca-campainha. 

Bando de Maitaca-verde (Pionus maximiliani) Foto: Charles Boufleur
Caturrita (Myiopsitta monachus) com material para o ninho. Foto: Charles Boufleur
Por fim, nos últimos clicks do dia, registramos mais um gavião-de-cauda-curta (Buteo Brachyurus), desta vez com sua plumagem tradicional.

Gavião-de-cauda-curta  (Buteo Brachyurus)   Foto: Dante Andrés Meller
Em resumo, fica deste dia a experiência de ter conhecido mais um importante refúgio de vida selvagem no noroeste do estado, um local de espécies ameaçadas e de uma rica cultura indígena, um povo sofrido que vem sendo à décadas excluído da sociedade. Sentimos também as dificuldades de explorar locais grandes e desconhecidos, quando as coisas nem sempre ocorrem bem como o planejado, e assim imagino quantos revezes o povo indígena não passou para colonizar nossa região. 

Finalizamos o dia contabilizando impressionantes 90 espécies! Mas o que realmente fica, é mais um dia de muitas aventuras, onde as amizades se fortalecem e experiências são compartilhadas. 




4 comentários:

Cadu Agne disse...

excelente! na próxima me avisem por favor!

Pedro Sessegolo disse...

Beleza...parabens

Dante Andres Meller disse...

Maravilha Charles !!! Foi um dia especial mesmo...

Alfieri Callegaro disse...

Sem guia local desbravamos essa área, que tem ainda muito a render... Observações Show